“Não sei fazer da vida um negócio”

Revista Quem, dezembro de 2008

Com seu primeiro papel de vilã, a perversa Flora, de “A Favorita”, a atriz fascinou o público e é o grande destaque do ano na televisão. O assédio aumentou, mas Patrícia diz que continua firme em sua regra de ouro: não dedica seu tempo a ganhar dinheiro marcando presença em eventos

Patrícia Pillar está prestes a completar 45 anos de vida e 25 de carreira. Só tem o que comemorar. Nascida em Brasília e radicada no Rio de Janeiro desde 1977, a atriz vive seu melhor personagem na televisão, a “falsa, cínica, sádica, dissimulada e profundamente perversa” Flora, como a própria atriz define sua primeira vilã na televisão, no ar na novela das 8, A Favorita. Com o papel, certamente ocupará destaque no ranking de mulheres más e cruéis que fazem parte da história do folhetim no Brasil, como Odete Roitmann, a malvada personagem de Beatriz Segall, em Vale Tudo (1989); Nazaré, a psicopata interpretada por Renata Sorrah em Senhora do Destino (2004), ou a pérfida Bia Falcão, vivida por Fernanda Montenegro em Belíssima. Como elas, Patrícia Pillar e sua Flora fascinaram (e assustaram) o Brasil. Prova disso está nos números da votação do 2o Prêmio QUEM Acontece, que elegeu Patrícia a melhor atriz de TV em 2008, com 38,54% dos votos de internautas. Em segundo e terceiro lugar, vieram, respectivamente, as atrizes Isis Valverde (com 26,39%), por sua atuação como a Rakelli, de Beleza Pura, e Claudia Raia (com 21,57%), por sua interpretação de Donatela, também em A Favorita.

Na sexta-feira (19), depois de gravar duas cenas “pesadas” – uma, externa, que começou às 9h da manhã, e outra, na cidade cenográfica da Globo, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, que só terminou por volta das 17h –, Patrícia conversou com QUEM sobre a alegria que veio com o sucesso da personagem, a surpresa com a reação dos fãs, a rotina de ponte aerea com o marido, o deputado federal Ciro Gomes, que trabalha em Brasília, e admitiu ser extremamente perfeccionista. “Eu me cobro muito. Para que tenha satisfação, preciso ir no meu limite”, disse.

QUEM: Em depoimento recente ao quadro Arquivo Confidencial, do Domingão do Faustão, o Ciro disse achar que a Flora ajudou você a colocar mais as coisas para fora. De onde vem isso?
PATRÍCIA PILLAR: O que ele falou foi que, muitas vezes, eu guardava as coisas, porque dizer “não” e impor limites é um aprendizado para mim. Durante a vida, venho aprendendo isso e ele acha que a Flora me ajudou a acelerar esse processo. É bom saber dizer “não”, para poder dizer um “sim” legal.

QUEM: Embora Luana, de O Rei do Gado (1996), e doutora Cris, do seriado Mulher (1999), tenham sido boas personagens, Flora parece marcar sua carreira de um jeito mais desafiador. É seu papel favorito na TV?

PP: Com certeza, a Flora é muito especial, demanda uma energia absurda. É profundamente desgastante, pelos sentimentos que ela evoca, pelo turbilhão que tem dentro e pela contenção desses sentimentos, que é a forma como ela se expõe. Ela é falsa, cínica, sádica, dissimulada e profundamente perversa. Fico esgotada, mas é uma oportunidade de trabalho fascinante. Zuzu Angel (filme lançado em 2006, em que vivia a protagonista) também foi um desafio para mim, um personagem recente da história do Brasil, numa situação trágica. Mas, na novela, a gente faz, a cada semana, em termos de material de imagem, o equivalente a dois filmes, sendo que um filme a gente faz em dois meses. É bem puxado.

QUEM: E o púbico, na rua, como reage?

PP: Para mim é uma surpresa, porque é minha primeira vilã. E o João Emanuel (Carneiro, autor de A Favorita) me disse: “Você vai ser odiada”. Então, estava preparada para isso. Mas quando tenho tempo para jantar fora ou ir a um show, acho incrível o carinho das pessoas comigo. Elas riem, acham engraçado, me dão bronca. É sempre com muito amor e sem nenhuma hostilidade. O carinho dos fãs é um aconchego, é como se fosse um abraço.

QUEM: Seus olhos brilham quando você fala da Flora e da sua relação com os fãs. O que os faz parar de brilhar?
PP: Uma certa vida fake, um mundo falso, alimentado por bobagens. Há modelos de comportamento que acho que não são autênticos. Falo de gente que corre atrás de ser alguma coisa vazia, só para ser aceito. Gente que força uma barra para parecer ser alguma coisa.

QUEM: É por isso que é raro vê-la fazendo presença remunerada em lançamentos de lojas, por exemplo?

PP: Raro, não. Nunca faço presença. Vou aos lugares para estar com os amigos, para prestigiá-los. O tempo é curto. Para mim, isso (presença) é perda de tempo. Tenho meus amigos, minha família, meu pais, tanta coisa gostosa, e isso tudo me parece vazio. Quero ser reconhecida pelo meu trabalho, não sei fazer da vida um negócio. A roupa que você veste, o lugar a que você vai, tudo passar a ter um objetivo que não é o de estar ali, com gente querida, mas de ganhar algo com isso, ah, não...

QUEM: Recentemente, falou-se que você estaria novamente com câncer. Isso é verdade?

PP: Não toco nesse assunto, porque não me interessa. Seria ratificar uma notícia que não existe. Não vou alimentar a não-notícia. Senão, qualquer um joga uma não-notícia no ar e eu tenho que comentar...

QUEM: O.k. E como você consegue ter essa pele de 30, aos 45 anos?

PP: Ah (Patrícia sorri novamente)! Tomei sol quando era adolescente. Depois, parei. Mas não sou aficionada a isso, não. Só uso um hidrante e limpo bem a pele por causa da maquiagem do trabalho.

QUEM: Você tem medo de envelhecer? Já fez ou faria cirurgia plástica?

PP: Não fiz, mas não acho absurdo fazer. Uma coisa sutil, um dia, quem sabe. A noção de beleza tem a ver com o conceito de juventude e, na minha profissão, isso é cruel. Prefiro pensar que posso encontrar um caminho para atuar, dirigir e produzir sem me aviltar. Quero ser uma velhinha com saúde, charmosa, legal, inteligente e interessante

QUEM: Você está a um mês de fazer 45 anos e não tem filhos. E se cobra isso?
PP: Tem sempre uma expectativa da mulher em ser mãe, isso é da própria natureza mesmo. Durante toda minha vida, sempre quis e não quis, quis e não quis. Agora acho que já passou.

QUEM: Você mora no Rio e o Ciro, em Brasília. Vocês têm se visto?

PP: O cantinho da gente é aqui, no Rio. Não em Brasília. Eu nasci lá, mas vim para o Rio na adolescência e tenho família no Ceará. O Ciro tem um apartamento no Ceará e eu adoro ir para lá, mas nossa vida é aqui. A gente decidiu que a nossa casinha ia ser aqui.

QUEM: Você parece ser muito perfeccionista, repara em muitos detalhes...

PP: Sim, sou perfeccionista mesmo. E muito exigente. Eu me cobro muito. Para que eu tenha satisfação, preciso ir no meu limite.

QUEM: De acordo com a coluna de um jornal paulista, você seria tão perfeccionista nas gravações que tudo precisa ser feito do jeito que você quer. Disseram que estaria evitando conversar fora da Globo, andando até rodeada por seguranças. É verdade?

PP: Essa é outra não-notícia, nem comento para não dar força. E eu precisaria de segurança para quê? Agora, perfeccionista eu sou mesmo. Estou ali para mostrar um bom trabalho, não para fazer social

QUEM: É verdade que, no fim da novela, o Silveirinha (Ary Fontoura) mata a Flora para salvar a Donatela (Claudia Raia)?
PP: Não faço a menor idéia de qual será o fim da novela. Não sei nem se o autor já sabe. Como o nosso último capítulo será no dia 16 de janeiro, devemos ficar sabendo só lá pelo dia 8.

QUEM: Que final você escolheria para a Flora?

PP: Ela é tão perversa, tão sádica, tão do mal que eu realmente não sei. Talvez voltar para a prisão fosse bem humilhante.

QUEM: Quais são seus planos para depois da novela?

PP: Em primeiro lugar, férias. Quero descansar e viajar um pouco. Depois, entre março e abril, devo lançar o documentário do Waldick Soriano (dirigido por ela). Agora, como eu fiz tudo no formato digital, fiquei presa ao circuito digital de cinemas, que é mais elitizado. Então, quero que, em cada capital que formos exibir o filme, tenha uma sessão de graça, ou muito barata.
 

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